Quem disse que a política é só para políticos, ou que políticos são só para política?
Na verdade, política é mesmo para apolíticos, essas pessoas que saem falando por ai que não se interessam ou que não entendem nada de política, porque são esses os verdadeiros políticos, são dessas pessoas que a nossa política precisa, de pessoas sem compromisso com partidos, com ideologias radicais, pessoas que ouvem de longe, captam silenciosas e emitem as suas opiniões no momento certo, de forma sutil.
Dessas pessoas leves, cuja vida não se resume só em política, que o nosso país precisa, de pessoas que tem como ideal apenas o bem, como valores a pátria, a cidadania e que tem ojeriza de políticos.
Pessoas que votaram e assumem terem votado em algum político não porque admiram integralmente a sua forma de lidar com as coisas (aliás, alguns políticos não sabem muito bem como lidar com as coisas), mas que o fizeram e farão novamente porque estão cansadas da boa e velha política da direita (tão extremista e maléfica quanto a da esquerda), e também, da argilosa esquerda, que se achega como quem nada quer e costumeiramente se instala nos pensamentos que mais se dizem livres. Livres que nada, mal sabem o quão estão acorrentados a valores que parecem proteger minorias e se sobrepõe à maioria (quase massacrada por suas malévolas críticas), maioria sim verdadeiramente livre.
Pessoas que não tem apego ao voto, que podem admitir que não votariam mais neste ou naquele candidato, mas que preferem dar uma chance para quem está lá, acreditar que pode dar certo ao invés de se lamuriar e criticar.
Quem não sente saudades da velha pátria? Hoje, outros tempos se instalaram, onde o jovem chega ávido e não consegue aceitar o velho (e ai eu digo que o velho sim é livre e sábio, porque consegue, a grossas penas, compreender o novo e se ajustar a ele, porém o novo, o jovem que se diz livre, liberto e sem preconceitos, é, na maioria das vezes incapaz de ceder, de demonstrar benevolência, de ser flexível), esse saudosista dos tempos em que falei, onde brincar na rua ou mergulhar nos rios das redondezas não implicada em perigo algum, é quem “tira tudo de letra” enquanto o jovem, com toda a sua liberdade (exagerada quanto as manifestações ideológicas), não sabe pra onde ir.
E quanto a isso, o problema hoje talvez não seja mais “ir”, mas realmente consista no “voltar”.
Voltar para a casa e encontrar prazer, voltar para o trabalho com vontade verdadeira, sem que isso seja uma obrigação ou martírio, voltar para Deus e resgatar antigos valores (como o respeito, o saber ouvir, a paciência), voltar para o próximo todos os dias e a cada novo dia, sem exaustão experimentar o sentimento de felicidade, voltar para si e renascer para os novos dias.
Vejamos que o ir não é tão complicado assim, complicação maior é descobrir que o caminho tomado foi o errado ou que não foi o melhor, aceitar que nossas decisões (e só por conta delas) nos faz padecer, reconhecer nossos erros e aprender com eles, voltar, voltar sem medo. Por isso insisto que o problema não é ir, porque bem ou mal vamos indo, simplesmente indo, o problema maior será sempre voltar, aprender com os tombos do caminho, gritar, chorar, mas voltar sempre que preciso.
Então, a caminhada me faz perceber que a política não é para os políticos, pois dessa política politiqueira estamos exaustos, desses discursos preparados, dessas polêmicas criadas para se discutir quem tem razão. Já nem nos importa sermos políticos tal qual como nossos representantes são, mas o verdadeiro político que está naquele que se diz apolítico por aversão as versões postas, eleitos ou reeleitos, velhos ou novos (que se ajustam ao sistema tão rápido quanto nossos velhos políticos conceberam e idealizaram um mundo impenetrável), pois o que o nosso país precisa mesmo são de pessoas boas, livres da necessidade de poder, descompromissados com o orgulho e a vaidade e apenas humildes políticos na aplicação do aprendizado infantil, inocente, verdadeiro (que as vezes custa mil críticas pela capacidade de assumir posições nos assuntos mais delicados), de falar o que as pessoas querem ouvir, mas não tem coragem.
O que o nossa nação precisa é de bons políticos saídos do povo, capazes de sem mandato convencer as pessoas, liderar ideias, mudar a posição dos mandantes, velhas crias perdidas no poder que se construíram na política que não presta (ou que presta apenas para alguns).
Brasil, socorro, somos saídos da pátria amada, políticos sem mandado, apolíticos por natureza, capazes de errar, sem medo do que está por vir, eis os verdadeiros políticos, que nascem do líder de classe, do líder da comunidade, dos presidentes das associações de bairro, dos donos de barzinhos de vilas (tão acostumados com todos os moradores, inclusive os de rua), dos defensores de causas difíceis (pois eu não diria nobres), dos fazedores de cafezinho que sorridentes servem os políticos investidos de suas togas (porque muitos políticos vestem togas e se dizem verdadeiros Deuses, mesmo sem mandato), nos seus “emaranhados” gabinetes.
Políticos são os alunos das boas causas, os estudantes populares, os varredores de rua desprovidos de vaidade ou orgulho, políticos são os cidadãos de bem, que querem sentar as suas portas no final da tarde, tranquilos e exigir tão pouco da vida, são os pais de família que retornam ao seu lar, ainda sem emprego e não desistem de tentar novamente no outro dia. São os crentes, que saem a pregar mesmo sabendo que terão tão poucos a ouvi-los.
Engana-se quem pensa que político é aquele que foi eleito para representar seu povo ainda que dele se distancie a cada dia (perdido em programação sofisticada, envoltos em esquemas cotidianos), pois políticos são os que descrevi até agora, os votantes e desinteressados em provar que tem razão (porque quem tem razão não precisa discutir, já tem a sua razão).
Que sejamos então políticos do bem e mesmo que dizendo-nos apolíticos, com toda ojeriza da política, não nos esqueçamos que o nosso país precisa de nós, políticos sem mandato, o povo para quem a política existe e por quem ela sobrevive.
Porque a política do bem não é saída das casas legislativas ou de qualquer órgão público (e elas deveria permear), mas sim, aquela que somos capazes de praticar todos os dias e que nada nos custa: O sorriso que gentilmente entregamos a quem está ao nosso lado e nem conhecemos, o “bom dia” que desejamos ao faxineiro por quem passamos até a nossa sala de trabalho, a oração que fazemos por aqueles que precisam, o agradecimento para quem nos serve café, o saber ouvir quem nos procura (mesmo as vezes sem tempo para “perder”), o desejo de bom final de semana para os amigos com quem pouco falamos (que pode ser pelo WhatsApp mesmo), a gentileza que fazemos sem esperarmos um retorno, a nossa doação que custa (não a esmola), a paciência que dispendemos sem “explodir” ao menor sinal de contrariedade (o saber ouvir o “não” sem esquecer os muitos “sim”), o não avalizar comportamentos errados, por estarmos tão acostumados a eles, o ceder o lugar ao mais velho na mesa…
São hábitos simples, que tornam as pessoas mais generosas. Eis a política que serve, porque esta sim seria capaz de mudar o mundo, a saída de dentro dos corações para transformar verdadeiramente a política não quer.

